Sobre máquinas do tempo e outros electrodomésticos que todos devíamos ter em casa

Não me zango facilmente, mas desta vez fiquei fulo, como é que ele podia ter escrito aquilo? Em 2016, João Caro Sousa geriu o fundo de investimento BPI Brasil Valor e, durante esse ano, deu a ganhar aos seus clientes 74%. Acabou por ser destaque de um especial no observador.pt e recomendado pelo melhor jornalista financeiro português. Tudo isto zanga-me porque o BPI Brasil Valor, quando visto à luz da escala temporal adequada, é um péssimo investimento e o investidor sensato deve afastar-se deste tipo de produtos. Ao longo deste post vamos perceber porque é que o BPI Brasil Valor é tão mau, criar algumas defesas contra este tipo de investimento e fazer uma primeira exploração de algumas alternativas.

Porque é que bons jornalistas financeiros dão maus conselhos de investimento?

David Almas é o meu jornalista financeiro português favorito. Escreve muitos e bons artigos, ultimamente no Observador. Tenho aprendido muito com ele mas, como uma grande parte dos humanos parece cair no availabity bias (parece ser especialmente forte em jornalistas), ou seja, usar a última informação disponível para tomar uma decisão, ou dar um conselho, ou escrever um artigo. Senão, vamos ler este artigo escrito por ele onde é dado destaque ao fundo de investimento BPI Brasil Valor, que é um veículo financeiro onde um gestor compra e venda acções de empresas brasileiras.

Samba na carteira. Como um gestor português ganhou 74% a investir no Brasil

Um leitor mais distraído do artigo concluiria: “quem é este génio do João Caro Sousa que trabalha no BPI e onde é que assino para comprar unidades de participação do BPI Brasil Valor para passar a ganhar 73,62% ao ano?” Mas será que é mesmo assim? Vamos analisar com mais atenção a curta entrevista que se baseia essencialmente em dois temas:

a) Como o gestor explica a sua performance do ano passado.

Eu explico-a pelo somatório de (i) a variação do índice que mede as 50 maiores empresas brasileiras (IVOBESPA), que cresceu 69,5%, com (ii) a valorização de 26% do Real em relação ao Euro, cujo resultado são uns 95,5%. Esta deveria ser a base da avaliação do gestor, ou seja, para justificar a intervenção de um gestor na escolha de ações de empresas, ele teria que ter uma performance que levasse a um ganho superior aos 95,5%. O entrevistado limita-se a contar uma história para explicar os seus 73,62% sem ser confrontado com o facto de que o mínimo exigido para alguém naquele ano, naquele mercado, seriam 95,5%.

b) O que o gestor acha que vai acontecer no futuro. Tendo em conta que o gestor não conseguiu ter melhores resultados do que um índice “cego” das maiores empresas brasileiras, pedir-lhe previsões do que vai acontecer no Brasil não parece ser significante.

Mas nenhum destes é o ponto principal que deveria ter sido discutido e que me deixou tão zangado. O ponto mais importante e que não chega a ser discutido é: qual a escala temporal adequada para avaliar o desempenho de um fundo de investimento de acções?

Podemos começar pelo próprio BPI que no seu site recomenda um período mínimo de investimento de 5 anos. Logo, o que aconteceu no período de um ano é irrelevante ou, antes, o que em termos técnicos estatísticos comummente se denomina de ruído. A dimensão temporal é desajustada. É um pouco como estar a avaliar o FC Porto em 2015/2016 ( quando ficou em 3º lugar – um mau resultado se és portista) pela vitória por 2-1 no jogo dessa época com o Benfica: se o que conta é ganhar o campeonato, um jogo é irrelevante.

Vamos então pegar na nossa máquina do tempo para adequar a escala temporal, viajar até ao passado, e olhar para a performance dos últimos 5 anos. No dia da escrita do artigo (11/01/2017), uma Unidade de Participação (UP) valia 2,78€, e cinco anos antes essa UP valia 3,68€. Houve, portanto, uma desvalorização de 26% no período de 5 anos, o que fazendo as contas dá uns assustadores 5,5% negativos por ano.

Eu no entanto sou da opinião que 5 anos é muito pouco tempo para este tipo de investimento. “Para sempre” é o melhor período que podemos ter em tudo o que está ligado a poupanças para a vida. 10 anos é o mínimo. No caso do BPI Brasil Valor, temos a sorte de ele existir já desde 2010, o que nos dá um historial de 7 anos. Ora vamos pegar novamente na máquina do tempo e imaginar que estamos ao lado do João Caro Sousa no dia da abertura do fundo e investimos 100.000€ das nossas poupanças no BPI Brasil Valor. O que teria acontecido se o tivessemos feito? A valorização mais antiga a que temos acesso é de 29/10/2010 quando uma UP valia 4,86€. No dia da escrita do artigo (11/01/2017), a mesma UP valia 2,78€. Isto quer dizer que se eu tivesse investido 100.000€ no início do fundo teria à data da escrita do artigo aproximadamente 57.200€. Durante a vida do fundo este daria uma perda de 43.800€, ou 7,7% negativos ao ano.

É um pouco estranho que estas não tenham sido algumas das questões levantadas na entrevista. Se por simpatia, proximidade, pela crónica indulgência portuguesa, availability bias, halo effect, ou outra, não faltam teorias para explicar. Independentemente da teoria escolhida, há uma regra simples que vamos usar e que é um dos pilares de uma boa estratégia financeira: escolher a escala temporal adequada. Nós vamos usar períodos de 10 anos, pois são grandes o suficiente para serem representativos e simples de usar quando chegar a altura de fazer contas.

Que farei quando tudo arde?

Quando um dos melhores analistas financeiros escreve a louvar resultados de -7,7% ao ano, as perspectivas sobre o que fazer com as nossas poupanças parecem mais deprimentes do que um romance do Lobo Antunes. Existem, no entanto, vários investimentos com graus de previsibilidade superior que, usando uma escala temporal adequada, nos permitem criar uma máquina do tempo que viaje para o futuro. A nossa estratégia vai assentar em quatro tipos de investimento:

(1) Guardar e (2) emprestar dinheiro

Guardar e emprestar dinheiro são duas das mais antigas formas de acumular poupança e estão correlacionadas positivamente com as taxas de juro. Se nasceste depois do ano 2000 não deves ter memória de um tempo em que os bancos pagavam para guardar o teu dinheiro, mas foi assim durante a maior parte da história, e seguramente voltará a ser em breve. Numa análise rápida do discurso  do economista-chefe do Banco de Inglaterra, Andy Haldane, cujo resumo gráfico podes ver abaixo, constatamos que algures entre os 4% e 5% é uma boa estimativa histórica de taxas de juro. O que estamos a viver é um período excepcional e mais cedo ou mais tarde teremos uma reversão para a média.

5000 anos de taxas de juro

(3) Ter empresas

Ter empresas tem também um longo e relativamente estável desempenho histórico (quando pensamos em décadas). Se olharmos para o índice que mede o desempenho das 500 maiores empresas dos EUA – o S&P 500 criado em 1926, temos um desempenho histórico médio a rondar os 9% ao ano, se contarmos com reinvestimento de dividendos.

Real_StockPrice-Return_Growth_Log

Desempenho do índice S&P 500, ajustado para inflação, com reinvestimento de dividendos, numa escala logarítmica. Fonte: visualizingeconomics.com

(4) Ter uma casa

estudo científico mais longo que analisou o preço de casas é o do Professor Piet Eichholtz, da Universidade de Maastricht, que estudou o preço das casas ao longo do Herengracht Kanaal desde 1628 até 2008. Um bom resumo do estudo está neste post. E o que se pode aprender com este estudo? Se comprares uma casa numa cidade dinâmica, numa localização central, no longo prazo podes esperar que esta tenha uma valorização que acompanha o valor da inflação. Para além da valorização equivalente à taxa de inflação, vais retirar mais rendimentos (4% a 8% dependendo da altura histórica) ou alugando a casa, ou através do usofruto da mesma, não pagando uma renda para lá viver. Como tal, uma casa pode ser um muito bom negócio, se bem que nem sempre é líquido que seja melhor do que alugar.

 

Valorização de uma casa no Herengracht Kanaal ajustado para inflação

A regra

Um dos pilares para deixares de te preocupar com dinheiro é pensar em décadas.

Desconfia particularmente de desempenhos acima dos 10% e exige sempre uma avaliação do desempenho histórico de qualquer produto financeiro de pelo menos 10 anos. O resultado de 1 ou 2 anos será a maior parte das vezes resultado de ruído e não de um trabalho consistente por parte de um indivíduo ou instituição que vá dar algum grau de confiança de resultados futuros.


Este post faz parte de uma série em que explico ponto por ponto cada um dos passos da checklist para deixares de te preocupar com dinheiro.

 

 

4 Comments

    • luistinocoazevedo

      Olá Tozé,

      “This too shall pass”

      Mas enquanto passa e não passa, vai-se reflectindo sobre tudo o que está no meio.

      Abraço

  1. Mariana

    Obrigada por mais uma dica para educar o senso (pouco) comum económico. Vou pensar em décadas a partir de agora. E se a esperança de vida humana continuar a aumentar, passarei a 15 anos!
    Perdí-me um pouco entre os índices de melhores empresas brasileiras, não consegui formar opinião em quanto ao fundo bpi valor Brasil por isso tbm não me desiludi quando o descontruíste. Não compreendo ainda esses produtos e por isso nem me atraem.
    Mas captei a cena dos 10 anos

    • luistinocoazevedo

      Esse “não compreendo logo, não me atraem” é um óptimo princípio.
      Muitas grandes crises económicas se teriam evitado se alguns CEO’s de bancos seguissem esse lema.
      O IVOBESPA mede as 50 maiores empresas (nunca melhores pois não há julgamento de valor).
      Todos os anos verificam quais são as 50 maiores empresas do Brasil, se forem as mesmas do ano passado, não fazem nada. Se a empresa 51 cresceu e ficou maior do que a 50, entra uma e sai a outra.
      Fazem isto tendo em conta o tamanho da empresa, empresas maiores terão um maior peso no índice.
      É um indicador “cego” no melhor sentido da palavra.

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